Do barroco ao barroco - está a arte contemporânea, na Casa Museu Guerra Junqueiro, Porto

Do barroco ao barroco - está a arte contemporânea

 … as obras reinventam-se, consoante os espaços, a duração e aqueles com quem se confrontam, uma e outra vez, sempre diferentemente, como se a paisagem mudasse de lugar.

 Os 18 artistas, presentes nesta mostra, desenvolveram em contexto de residência, as obras que impulsionaram este projeto curatorial. Entre 2009 e 2013, as obras foram concebidas e apresentadas nas diferentes edições da programação do Carpe Diem – Arte e Pesquisa (Lisboa), sob curadorias de Paulo Reis e de Lourenço Egreja).

Entre maio e setembro de 2012, concretizou-se a primeira situação de deslocamento das obras – por via da extensão curatorial - no âmbito da mostra: Uma coleção de arte contemporânea para Josefa de Óbidos (curadoria de Fátima Lambert e Lourenço Egreja). Assim, se cumpriu a primeira etapa do projeto de itinerância, baseado na versatilidade dos espaços escolhidos (versus adequado desenho demontagem) e correspondendo ao desafio instituído neste procedimento de “viagem” das peças.

As obras foram compiladas para uma primeira exposição na Casa da Parra (edifico do barroco galego) em Santiago de Compostela. Adquiriram uma outra existência fora do lugar e implantação específicos onde se originaram. Seguiu-se, depois, a 2ª mostra em Vila Nova de Cerveira. Agora, cabe o desafio – acarinhado pelos artistas, quanto pelos curadores – de as deslocarem para a Casa-Museu Guerra Junqueiro, permitindo-se, mais uma vez, outras assunções e resultados.

Sob o olhar esculpido, em 1970 por Leopoldo de Almeida, que retratou o poeta, as peças atingem a errância destinada, proporcionando uma recepção dinâmica, improvisando outras interpretações e disponibilidades culturais. Esta exposição é uma permanência, um repouso do caminho, uma espécie de “peregrinação” estética que subverte o sentido do afirmado por Peter Handke: “…E os locais da duração também nada têm de notável, / muitas vezes nem estão assinalados em nenhum mapa/ ou não têm no mapa qualquer nome.” [1]

Evoquem-se as viagens do poeta que, ao longo de décadas, adquiriu as peças que integram a Coleção, doada pelos herdeiros à Câmara Municipal do Porto em 1940. A Casa-Museu Guerra Junqueiro é um equipamento museológico radicado num Palacete barroco (1730) e cuja arquitetura se atribui a Nicolau Nasoni. Residindo num espaço patrimonial privilegiado e situada num envolvimento arquitetónico e urbanístico singulares – Freguesia da Sé (Porto), é o local onde se cumpriu o anseio de Guerra Junqueiro, congregando um espólio adquirido com critério e lucidez. A carga histórica e simbólica que a envolve - retrocedendo na cronologia até ao estilo barroco no Porto - encontra pontos de afinidade ao Palácio de Pombal (Palácio dos Carvalhos) – situado em pleno Bairro Alto, Lisboa – local de onde as obras procedem ou foram geradas.

A edificação lisboeta, berço do Marquês de Pombal, é, igualmente, uma referência emblemática no tecido urbano da cidade – entre a esquina da rua do Século e a rua da Academia das Ciências. À construção barroca, dos inícios do séc. XVII, acresce um amplo jardim, pontuado pela fonte. As caraterísticas do espaço exterior, conferem-lhe a proporção de um arquivo quase orgânico, densificado pela aura de tempos sobrepostos.

Ambos espaços, situados em áreas históricas, estão na salvaguarda dos respetivos patrimónios culturais, zelando pelas suas identidades e projetando-se para o futuro, mediante o acolhimento e promoção da arte contemporânea e acolhendo propostas bem atuais. Ambas as estruturas são nítidos comprovativos de como, em sociedades perspicazes e lúcidas, os arcos cronológicos providenciam a exponencialidade dos tempos vindouros. Acolhem as poéticas e as autorias (identidades) artísticas, provenientes de vários países – Moçambique, Argentina, Brasil, Bélgica, França e Portugal, com raízes e experiências de viagens por tantos outros destinos. Esta confluência de origens já é, por si só, demonstrativa de como as viagens e as permanências se organizam e convergem em intenções e produtos artísticos, ultrapassando fronteiros, sendo denotativas de miscigenações: “O viajante, no seu movimento incessante, vê tudo à distância.”[2] A distância, que se tenha para rececionar as coisas de arte, corresponde a um movimento de “duplo sentido” – talvez, seguindo Benjamin, seja uma …rua de sentido único, convergência de ações que desenham o desenvolvimento social e cultural. A duplicidade, abertura, para olhar as obras, apropriando-se de idiossincrasias e particularidades, expande-se. Preserva-lhes, todavia, a autonomia que muito precisamente as distingue. Se, por um lado, uma obra se realiza – em casos específicos, na relação ao local pré-estabelecido, por outro lado, a espessura e densidade da sua concreção (independendo da sua filiação estética) permite que seja revista a sua função originária, acrescendo-lhe a alteridade.  

As produções realizadas pelos 18 artistas, envolvidos neste périplo, propõem leituras em processo, abertas, correspondendo a intervenções socioculturais e artísticas expandidas. Compreensões diferidas, apropriações ativas, regidas pelas convições de sustentabilidade e diálogo institucional, viabilizadas por entidades e organizações de responsabilidade pública e societária, em articulação aos artistas e demais operadores culturais. Pretendeu-se, pois, vivificar obras em contexto de descentralização cultural, atendendo à componente patrimonial mista (imaterial, natural e arquitetónica), num movimento fluído em direção a um futuro acrescido, consubstancializando-se no presente em atos de desenvolvimento.

Entre o desenho, o vídeo, a pintura, a escultura e a instalação alinham-se as expressões e os registos mais determinados e relevantes pela visibilidade da arte.

Os 18 autores posicionam-se em tendências estéticas próprias que viabilizam diálogos entre si. Os denominadores comuns, que se podem detetar, residem na exigência e ética de conceção e criatividade que os move. Os valores estéticos confluem na rigorosa consciência do papel do autor na sociedade contemporânea, abrindo viagens para a revisão histórica da arte e da cultura no humano e alertando para o incontornável respeito pelas identidades pessoais. A ética do eu que colabora com os outros, para promover as condições de existência está implícita nos quadros concetuais das peças artísticas apresentadas.

Propõem-se alguns tópicos para a leitura olhada das peças que integram a exposição que viajou de (lugar) barroco até outro (lugar) barroco, sob auspícios do mais contemporâneo:

Arquivos de memórias e lembranças – pessoais e societárias; Exercícios de reescrita de olhares – sobre a paisagem, arquitetura e urbanismo; Apropriação de indícios, rastos e vestígios nos lugares; Sedimentação de conceitos - objetos quase desmaterializados / substâncias visuais e sonoras; Concreção de elementos e escritas – acerca do visceral e/ou do simulado; Isolamento de sinais, linhas e convergência de elementos compósitos; Indexação de tópicos – geografias localizadas e cartografias (quase) utopistas (…) Entre a visão intermediada de situações e pessoas, num mundo onde dominam culturas que visibilizam paradoxos, dogmas e ambiguidades e as “capitais dolorosas” das poéticas (Paul Éluard dixit) existem inúmeras redenções, que no tempo e o espaço, são sistematizadas e acontecem em obra.

Entre coordenadas, por vezes quase oposicionais, avançando para resoluções singulares, os autores desenvolvendo trabalho nestas décadas iniciais do séc. XXI, asseguram, portanto, a riqueza das perspetivas diferenciadas. Está-se perante decifrações convictas, definidas por estratégias pertinentes que são decisórias e que mostram a impossível uniformidade de pensamento. É o tempo da versatilidade, das múltiplas opções que aos artistas melhor servem. O artista será um viajante, nos seus trajetos e processos. E as suas produções viajam, tornando-se experiências para os públicos diversos que as acolhem e delas se apropriam.

                       

“O pensamento só é interessante quando é perigoso.”

Maria de Fátima Lambert

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inauguração:14 de março, 18h

Exposição patente de 14 de Março a 31 de Maio 2014

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