Óbidos 2012

Uma coleção de arte contemporânea para Josefa de Óbidos
 
Laura Vinci, No ar, 2008, máquina de partículas de água e tubos de cobre, dimensões variáveis (Cortesia da Artista)
No ar (um trocadilho com a palavra francesa noir), é uma máquina de produzir névoa que gerou uma atmosfera cinematográfica no Jardim do palácio / Carpe Diem e, agora, promove o confronto com a fachada da Igreja Matriz em Óbidos, tendo sido colocada no fontanário implantado no adro.

Max Frey, Ping Pong Half Pipe, 2011, madeira, exaustores, bolas de ping pong (Cortesia Vera Cortes – Art Agency)
Ping Pong Half Pipe (2011) é uma instalação com bolas de ping pong movidas por um ventilador de ar que as faz pular e cair, criando imagens constantemente novas. A minuciosa concatenação entre a estrutura curvilínea de madeira, numa perfeita definição angular que funciona como rampa e prende a atenção não somente do olhar do espetador mas seus ouvidos e compulsivo movimentação em redor para se aperceber do vento gerado pelo motor…

Max Frey, Colored Light Robe, 2011, cabos de electricidade e lâmpadas (Cortesia Vera Cortes – Art Agency)
Colored Light Robe é uma peça cinética que integrou também a mostra no Carpe Diem, tendo aí sido instalada numa espaço “noturno”, dele se evidenciando a luminosidade policroma. Em Óbidos, a sua pertença a um vazado no espaço vertical da Galeria, confere propriedade à “NovaOgiva”, parafraseando quase uma leitura arquitetural.

Samuel Rama, Site Size, 2011, fotografias, esculturas de grafite e plintos, dimensões variáveis. Site Size #2, 2011, Impressão Jacto de tinta 88X124cm (Cortesia do Artista)
Site Size (2011) propõe dois olhares paradoxais, porém fundamentais e recíprocos – olhar para o céu e olhar para a terra. Entre a imagem fotográfica, cujo escopo não é mais a fotografia, antes a “fissura” (como assinala o artista), a proposta tridimensional das 3 peças gera metáforas, procedendo por alegorias e simbologias que, do originário, se transportam ao atual.

Alejandro Somaschini, Barro, 2010, argila, cerâmicas, texturas do piso do Palácio de Pombal e arame, 190 x 60 x 80 cm (Cortesia do Artista)
No espaço maior da cidade, nos espaços intersticiais de bairros, ruelas, jardins e, sobretudo, no Palácio do Marques de Pombal foi recolhendo breves e reduzidas partes de objetos, moldando no barro, as texturas de troços incompletos de peças, no chão, nas paredes…no jardim, nas árvores, tudo que se imagina e reconhece nesses espaços. Dessa aglomeração de unidades conjugando um “arquivo” pessoal, mas adstrito a uma comunidade, ressurgiu a essência do que seja degradação e fuga para desaparecimento: o sal sustenta a vida e conserva as memórias. Trabalhou os conceitos de preservação, de conservação que historicamente simbolizam o civilizacional e o cultural, quanto as dimensões esoterista e alquímica.

Manuel Caeiro, 15” de fama, 2011, tubos de secção quadrada de aço, lâmpadas, dimensões variáveis (Cortesia do Artista)
No Carpe Diem33” de fama (2011) tratava da construção da personalidade do ponto de vista estético, da pessoa enquanto ser pensante, mas vaidoso. O artista aproveitou a situação do espaço, neste caso as escadas do Palácio Pombal, para intervir de forma que existisse interação do espectador com a obra. Em Óbidos, a instalação teve um primeiro destino nas portas de entrada da vila (Sta. Maria), tendo posteriormente sido trabalhada pelo autor no local de um dos miradouros, proporcionando uma nova abordagem de ainda mais breves segundos de fama aos passantes.

Nuno CeraO Passageiro, 2011, dvd (Cortesia do Artista)
A caverna marítima é a estrutura e o ambiente do projecto O Passageiro (2011) apresentado no Carpe Diem – Arte e Pesquisa. Fenómenos geológicos com uma grande representação simbólica, espaços de conflito, lugares do sagrado e de tensão entre luz e sombra, as cavernas representam zonas de passagem entre os sonhos e as ideias. Em Óbidos, mostra-se o dvd – que integrava o projeto – associado às fotografias. Numa leitura platónica para os tempos atuais, a caverna adquire uma existência de pasmo e lucidez em convulsão, metamorfoseando e subvertendo convições reais e ilusões identitárias, quanto coletivas.

Tatiana Blass, Metade da sala no chão – piano surdo, 2009, dvd (Cortesia da Artista)
Metade da fala no chão – Piano surdo (2009) é o registo em vídeo da performance-instalação apresentada na 29ª Bienal Internacional de São Paulo. O vídeo mostra o pianista Thiago Cury a executar cinco peças de Frederic Chopin num piano de cauda, enquanto duas peças se vão revezando para despejar cera quente na caixa do instrumento, prendendo as cordas, as teclas…inibindo o ato de tocar. Há nesse processo/acção/decisão para redundar em obra, algo de alquímico, por certo.

Nuno Sousa Vieira, Just Beginning, 2003, Escadas de ferro do ateliê do artista intervencionadas e pintadas, 240 x 164 x 40 cm (Cortesia do Artista)
O artista tem vindo a pensar e realizar peças e instalações que decorrem da sua presença no espaço de atelier, no caso uma antiga fábrica de plásticos e produtos afins, com uma forte carga em termos de património e arqueologia industrial. Apropriando-se de elementos matéricos que povoam o local, o artista inflinge rotações, dobras agregando-lhes intensidade concetual, substantiva e ideológica.

Marcelo Moscheta, Galiza, 2009, desenhos em pvc e pedras, dimensões variáveis (Cortesia do Artista)
Galiza é a instalação produzida na residência artística realizada em V.N.Cerveira de 20-06 a 22-07, no âmbito da curadoria “Incorporal, intangivel e simulacro” (Fátima Lambert). O artista deslocou-se várias vezes a La Guarda (Galiza), lugar quase em frente a V.N.Cerveira, atravessando de ferry ou pela ponte sobre o rio Minho. Encontrou pedras que “mapeou” GPS, tendo-as fotografado e desenhado, complementando as próprias pedras e fragmentos que reuniu.

Jeanine Cohen, Onwers left? 2012, madeira, Mdf, tinta acrílica fluorescente (Cortesia da Artista)
O detalhe e minuciosa no exercício do desenho da peça, quanto da sua execução traduzem a exigência artística que a artista belga coloca nas suas conceções. A luz, plasmada na matriz branca, espelha cormatismos ténues que, nalguns momentos jogam a imperceptibilidade e obrigam o espetador a um exercício de Gestalt. No Carpe Diem, esta obra recentíssima, encontrava-se implantada numa sala onde uma lareira histórica era encimada por uma composição lumínica. Aqui, essa outra peça, estando ausente, é substituída por uma janela para o exterior que outorga outras relacionados percetuais à estética subjacente na peça.

Joana Bastos, Frigorífico, 2011, frigorífico, c-print, moldura estanque em acrílico, 173 x 53 x 50.5cm (Cortesia da Artista)
Projeto Gustav Metzger (1926 – Frigorífico) | Sinopse: Gustav Metzger (1926) é um artista e ativista político que desenvolveu o conceito de “Auto-Destructive Art” e “Art strike”, concebidos como um ataque directo ao sistema capitalista e da indústria de arte. O objeto que se converte em obra, assume uma corporalidade de pensamento ideologizado que dirige as nossas reflexões para zonas de confluência entre o artístico, o estético devidamente organizados, numa contaminação boa e lúcida, para o sociológico, político sendo portanto o antropológico cultural sua fundamentação e alvo.

Marcio Vilela, Sem título #1 (Série Mono), 2012, fotografia, 152 x 187cm (Cortesia de Fátima Fonseca)
A meticulosidade do fotógrafo é cúmplice do performer. Ao longo de meses Márcio Vilela deslocou-se à costa oeste para acompanhar o processo de degradação de uma casa, olhando-a e fotografando. Foi registando as sucessivas etapas numa documentação onde a imagem visual, constrangia a vivência societária e humana que a casa é e simboliza no mundo atual. Questões ambientais, explanando a deteriorização do urbano e natural, estão subsumadas no projeto que apresentou no Carpe Diem, tendo transportado in extremis o que finalmente restava. Fotografou a paisagem sem a casa, estando os seus “remains” em objeto na instalação adstrita. Aqui, a fotografia – em aparência imediatista – coloca-nos em estado de ignorância quanto ao seu significado verídico e obrigando a refletir sobre questão incontornável – em termos sociológicos, quanto artísticos.

Rodrigo Oliveira, Gato 1, 2, 3, 4, 5, 6, 2010/2012, cabos eletricos e lâmpadas, dimensões variáveis (Cortesia do Artista)
Parafraseando as “peças” urbanas que nas grandes cidades brasileiras são construídas para os locais se apossarem de eletricidade dos postes públicos – Gatos, o artistas concebeu essa espécie de lustre ou candelabro com cabos coloridos e lâmpadas que iluminam agora a entrada da Galeria NovaOgiva de Óbidos. É uma metáfora esteticizada do societário e urbano que da Sala Azul do Palácio de Pombal ou da sala da Galeria Quase (Porto) foi reconcebida para um olhar surpreendido que obriga a olhar na estreiteza da rua direita o céu.

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