De Bernardo Pinto de Almeida para Paulo Reis

Caros Amigos

a todos vocês, que têm feito o Cape Diem, um espaço singular e necessário, quero expressar as minhas sinceras condolências pela morte, tão súbita, do Paulo.

Conheci-o logo que começou a vir a Portugal e tornámo-nos amigos. Assim ficamos ao longo destes mais de quinze anos.
Não nos encontrávamos tanto como o teria desejado, por termos ambos agendas ocupadas, mas tive sempre por ele uma admiração intelectual profunda e uma estima verdadeira e alegre que o tempo foi fazendo crescer e cimentou.

Fiquei contente quando me pediu para orientar o seu doutoramento, e achei graça, porque o Paulo não precisava de nenhum doutoramento. Ele era sábio, culto, activo, inquieto, curioso. Aprendi muito com ele, que teimava em me tratar de mestre. Mas modesto como era, provavelmente nunca se deu conta de como ensinava sempre alguma coisa a quem o rodeava. Se tivesse chegado a “orientá-lo” no tal doutoramento, o que não chegou a suceder porque nunca encontrava tempo no meio de tanta actividade, teria decerto aprendido eu mais com ele do que ele comigo.

Tive dele, desde os primeiros encontros – quando o conheci apresentado pelo comum grande Amigo Albuquerque Mendes e depois nas muitas vezes que o encontrei na generosa casa do Zé Mário Brandão – uma impressão que o tempo veio sempre a confirmar. Era bondoso, inteligente, arguto, excepcionalmente culto e tinha um genuíno amor pelas coisas da arte e da cultura. Sempre achei que tinha o fôlego de um ensaísta mas perdia-se em projectos de menos monta precisamente porque era generoso e aberto a colaborar com os demais abrindo-se a projectos sempre interessantes como o Carpe Diem ou a revista Dardo a quem fiquei sempre a dever um texto, já que me convidou logo para o primeiro número.

Foi um Amigo de Portugal e dos portugueses e bem merecia uma medalha de mérito cultural pelo muito que fez pela aproximação com o Brasil de tantos artistas portugueses, de quem cuidou mais do que muitos críticos locais. Mas o Paulo era um universal, e a sua visita era subtilmente a de todo o seu maravilhoso continente naquilo que ele tem de melhor: solar, modesto, quase ingénuo, mas sabedor e rico de uma cultura antiga, que junta o índio, o branco e o negro, a floresta e a megalópolis, a doçura da música e a cor de Tarsila.

A morte do Paulo, de que acabei de saber, deixou-me triste e com a sensação amarga de ter perdido mais um Amigo. Tinha planos com ele, livros para lançar, um projecto de livro conjunto, exposições a fazer – tinha acabado de o juntar ao projecto de uma Fundação em Espanha.

Peço-vos que recebam este abraço e este testemunho pelo que ele significa de um sincero pesar. E que transmitam à sua Família, que não conheço, bem como aos responsáveis diplomáticos do Brasil em Portugal as minhas condolências.
Contem comigo se acaso quiserem fazer-lhe alguma homenagem. E não deixem por favor cair o que ele começou

Um abraço muito triste do Bernardo Pinto de Almeida

Com conhecimento aos nossos comuns amigos Albuquerque Mendes e José Mário a quem igualmente abraço

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