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Gabriela Machado

Penso meu trabalho a partir de um interesse por uma forma, uma imagem que se destaca do resto, seguido de um processo de estudo serial da ocupação espacial desta forma e o que ela suscita a partir do tempo de convivência que passo a ter com ela. A obra acontece durante este processo do fazer, em uma simbiose com este momento.

 

1. Gabriela Machado

Forma, espaço, tempo, poética, combinatória.

2. O que vês quando olhas para a tua obra?

Vejo o resultado de um mote-contínuo entre o sentir e o fazer. Um bom momento ilustrativo desta mecânica foi quando realizei a exposição Para um pequeno lago verde, no Museu do Açude, no Rio de Janeiro, ano passado (2014). Três esculturas foram colocadas dentro de um lago do museu e dialogaram com aquele espaço de natureza – um diálogo que só é possível quando eu entendo o espaço. Essa relação em ocupar o espaço é talvez o cerne da minha obra, pois sempre estou observando as formas ao meu redor, como elas ocupam o espaço. Minha poética vem muito deste processo de me sentir instigada por uma forma, entender como ela acontece no espaço e a partir do sentir que traz essa compreensão, partir para o fazer.

3. Que elementos não podem faltar numa exposição tua?

Não acredito que existam elementos obrigatórios nas minhas exposições. É preciso, antes de tudo, entender o espaço expositivo, o que ele comporta, como as obras podem funcionar entre si ali. É sempre um desafio, cada lugar é um lugar.

4. O teu processo artístico em poucas palavras.

Não trabalho muito com o conceito de ter um projeto a priori, as coisas acontecem a partir do que me interessa e me provoca curiosidade. Meus trabalhos têm um universo próprio, interligado, mas ao mesmo tempo independente. Comecei a fazer fotografias, por exemplo, e a partir delas faço as pinturas pequenas, depois, percebendo elementos como formas geométricas nestas pequenas, parto para as grandes e as esculturas, por sua vez, às vezes se mostram como um aspecto tridimensional de algumas das pinturas, ou mesmo o contrário. Tudo contém e tudo está contido, são relações, sempre em um processo serial que resulta em uma combinatória. Vou produzindo e descobrindo como aquilo funciona, criando diálogos entre os trabalhos em si e entre as coisas que me influenciaram a fazê-los.

5. Artistas vivos ou obras que são uma referência para ti.

As pinturas de Sean Scully, pois a massa pictórica de suas pinturas me faz querer pintar; Richard Serra, pela monumentalidade de sua obra, da forma como percebe o espaço da natureza; Ai Weiwei, por sua capacidade de perceber o universo a sua volta e de dialogar ao mesmo tempo com todos os espaços e formas. Tunga, pela inteligência dos materiais. E muitos outros!

6. Tendências que tens percebido ou acompanhado nas artes contemporâneas nos últimos 15 anos.

Vejo que o artista de hoje está completamente conectado com tudo a sua volta e o resultado da arte tende a ser mais politizado e, ao mesmo tempo, também ter uma formalização menos acadêmica e mais artesanal, resultando neste contraponto importante que estamos vivenciando no momento. Apesar da globalização e de toda uma infraestrutura que acompanha o universo da arte, ela traz como resultado uma volta a necessidade do silêncio.

7. O que é que tu colocarias no teu cabinet de curiosités?

Não sei responder esta pergunta, tantas coisas e situações possuem frescor ao meu olhar, que no momento não gostaria de classificá-las. A única coisa que levaria sempre comigo são as pequenas pinturas de Giorgio Morandi, suas naturezas mortas são muito especiais ao meu olhar.

8. A experiencia como artista residente no CDAP.

A experiência da residência foi muito importante para mim, pois pude constatar o quão importante é olharmos para outras coisas fora do nosso cotidiano, nos desprendendo da nossa zona de conforto, aprendendo a criar mesmo em condições diferentes de trabalho. Cheguei no CDAP com expectativas de criar novos olhares e ela foi totalmente realizada. Além da exposição que fiz como resultado da residência, a adiação de um novo olhar sobre o mundo a partir da sensação de se estar fora do seu habitat foi muito genuína e essencial para o que é meu trabalho atual. Foi durante o período em Lisboa que comecei a fazer registros Polaroid de cenas do cotidiano, que se desdobraram em um diário de imagens que teve importância extrema no processo de construção dos novos trabalhos que venho desenvolvendo em pintura e escultura e que também resultou no último projeto, o livro Rever.