Liene Bosquê

Não tinha idéia que me tornaria uma artista, queria ser cenógrafa. Como não havia curso superior na área em São Paulo, de onde sou, decidi estudar arquitetura e ao mesmo tempo cursar bacharelado em Artes Plásticas para complementar. Foi então que eu acabei me fascinando com as Artes Visuais quando descobri que se podia ser artista, ser subjetivo, comunicar sem usar palavras, construir com as próprias mãos e estar presente em todas as etapas do processo criativo.
Acabei indo morar fora do Brasil sem nunca ter planejado, a vida foi levando e já se vão 10 anos. Por todo esse tempo, senti necessidade de fincar raízes por onde estava e estou vivendo. Isso se reflete no meu trabalho, no conceito, em peças site-specifics e através de pesquisas da história e cultura local. Tem sido como uma expedição, descobrindo novas formas de encarar o mundo e entender outras memórias coletivas para construção da minha memória pessoal. Quando vivi em Lisboa, tirei o Curso Avançado no Centro de Arte e Comunicação Visual (Ar.Co). Foi uma oportunidade de desenvolvimento de uma linguagem pessoal e de foco na produção artística, usando a arquitetura como matriz para moldagens, e criando impressões com látex, conceito que permeia o meu trabalho até hoje. Ter ganhado o prêmio Anteciparte em 2007 foi um grande incentivo para iniciar a carreira. Esses anos em Portugal foram muito inspiradores, por vários motivos entre eles presenciar a preservação do patrimônio histórico e cultural, as marcas da passagem do tempo, como também a relação com a história brasileira. Porém foi durante o mestrado pela School of the Art Institute of Chicago, que meu interesse pela história como também pela teoria da arquitetura e da cidade foram se difundindo com a prática escultórica e escolha material. Nos Estados Unidos, encontrei a relação com meu pais de origem como por exemplo arquitetura moderna e contemporânea, cidades planejadas, junto com idéias de progresso e futuro. Todas essas vivências tem sido importantes para explorar como elas influenciam a experiência sensorial e afetiva em relação aos espaços.
Mudei-me para Nova York em 2011, onde vivo até hoje e participei de residências e do programa para artistas imigrantes da New York Foundation for the Arts. Tenho exibido meu trabalho pelos países por onde vivi; em espaços alternativos e públicos, galerias e museus como por exemplo: MoMA PS1, Museum of Contemporay Photography of Chicago, Point of Contact Gallery, Galeria Arte Contempo em Portugal e Museu de Arte de Ribeirão Preto no Brasil, entre outros. Trabalho também como arte educadora.
1. Liene Bosquê
Escultura, instalação, site-specific, performances, prática social
2. O que vês quando olhas para a tua obra?
Expedição. Levantamento de questões sobre experiências sensoriais em relação a arquitetura, espaços urbanos e pessoais associados a contextos, memórias e histórias. Exploração de marcas da passagem do tempo. Arqueologia experimental.
3. Que elementos não podem faltar numa exposição tua?
Conceitos, moldagens, cor que vem da matéria, coerência entre os trabalhos e relação com o espaço expositivo.
4. O teu processo artístico em poucas palavras.
Pesquisa, referência, jornada, experimento, conceito, e matéria.
5. Artistas vivos ou obras que são uma referência para ti.
Muitas das minha referências foram meus professores, pois me propiciaram uma base fundamental da arte como também dão como exemplo o trabalho deles próprios, são eles os artistas portugueses: Armanda Duarte, Thierry Simões e Rui Moreira e as americanas: Anne Wilson e Rebecca Keller. Também são referências as artistas conterrâneas brasileiras Regina Silveira e Rivane Neuenschwander. Entretanto há artistas que conheci o trabalho recentemente e se tornaram rapidamente referência são eles: Doris Salcedo e Carlos Garaicoa; como também Heidi Bucher e Robert Overby, que apesar de já não estão mais vivos, é como se tivessem para mim pois tenho ainda muito a descobrir sobre o trabalho deles. A lista seguiria muito longa com arquiteturas, cidades, operas e danças que também são minhas referências.
6. Tendências que tens percebido ou acompanhado nas artes contemporâneas nos últimos 15 anos.
Interdisciplinaridade, processos compartilhados com o público, engajamento social e efemeridade
7. O que é que tu colocarias no teu cabinet de curiosités?
Coloco sempre lembranças (souvenirs), miniaturas e artesanatos de diversas culturas encontrados em viagens, e objetos que me tragam uma memória positiva de pessoas e lugares com os quais convivi.
8. A experiencia como artista residente no CDAP.
Foi bem experimental e processual; com um diálogo bem aberto com o CDAP uma excursão pelo Palácio, pesquisando, desenhando e explorando os espaços. Tive o privilegio de ser residente logo no inicio do programa e o subsolo não estava sendo usado ainda, então escolhi a cozinha e usar como material o que encontrei no próprio espaço ordenando-os. E foi um período muito especial para mim de mudanças na materialização do trabalho e de retornar a Portugal depois que havia me mudado de Lisboa.
