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Renato Bezerra de Mello

Iniciei a minha atuação como trabalhador de arte (expressão cunhada por Cildo Meireles), no ano 2000, depois de 16 anos dedicados à arquitetura e ao restauro de bens tombados pelo Patrimônio Histórico do meus país. No momento da virada, que foi provocada pela participação em um programa de intercâmbio entre a Escola de Artes Visuais do Parque Lage /Rio de Janeiro, e a École Nationale Supérieure des Beaux Arts /Paris, tomei a seguinte decisão: que assim como na arquitetura, iria trabalhar com as questões relacionadas à memória, na sua tensão entre a lembrança e o esquecimento. Em 2002, em Paris, participei de uma primeira exposição coletiva na qual apresentei uma instalação que reunia memória familiar e coletiva: resgatando para isto antigas fotografias abandonadas em armários e gavetas e um pequeno objeto popular, em plástico colorido, que servia para visionar essas imagens, reproduzidas em diapositivo em preto e branco. Saliento aqui, que desde o início me interessou, além da memória das pessoas, aquela das coisas que as cercam, e que numa velocidade crescente, caem em desuso: assim como as fotografias que inicialmente motivaram a criação de “Visionários”, os pequenos monóculos em plástico e a própria película fotográfica que completam a obra, eram coisas que andavam, naquela época, esquecidas. Dando prosseguimento a minha pesquisa artística, lancei mão de cartas de família e folhas de papel carbono, sobre as quais escrevi e desenhei incansavelmente; decidi bordar, usando para isto tecidos usados e linhas que já não eram mais fabricadas; destruí linhas de seda, transformando-as quase em pó, para depois transformá-las em minúsculas bolinhas coloridas; quebrei uma coleção de copos e taças de cristal, que havia levado vinte anos para reunir; desgastei, com lixa d’água, pequenos cubos de giz, para recriar a coleção de bolas de gude perdida na infância; e retomei outra coleção de quando era criança, inventando um diário em cartões postais, que me enviei a cada dia, pelo correio, ao longo de dez anos. Fiz isto e ando fazendo outras coisas, mas não quero ser exaustivo, me parece que devo parar por aqui. Mas gostaria ainda de dizer que, recentemente, por ocasião de uma exposição no Rio de Janeiro, cidade aonde vivo e trabalho atualmente, recebi uma mensagem de um amigo que me agradou muito, e que talvez sirva para concluir esta pequena biografia profissional. Ele escreveu o seguinte: “Você é um artista que a cada dia sedimenta uma direção para a ideia da arte como processo de conhecimento e sua via tortuosa”. Ando pensando bastante nisto, com especial apreço pela via tortuosa.

 

1. Renato Bezerra de Mello

Simplesmente auto- indescritível.

2. O que vês quando olhas para a tua obra?

A sua fragilidade.

3. Que elementos não podem faltar numa exposição tua?

Algumas histórias e materiais muito simples.

4. O teu processo artístico em poucas palavras.

Lento e longo para sentir a passagem do tempo.

5. Artistas vivos ou obras que são uma referência para ti.

Vou citar apenas um artista, é português, que conheci em 2012 no CDAP. José Luís Neto e a sua obra 22474, que desenvolveu a partir de uma fotografia realizada em 1913, durante a cerimônia de abolição do uso do capuz na penitenciária de Lisboa. Esta obra permanece no meu imaginário, tornou-se uma referência para mim.

6. Tendências que tens percebido ou acompanhado nas artes contemporâneas nos últimos 15 anos.

Percebo um excesso de tendências, tudo relacionado à crescente procura de novidades que vivemos. Não me interesso por isto é prefiro quem segue um caminho independente e profundamente próprio.

7. O que é que tu colocarias no teu cabinet de curiosités?

Lençóis brancos, encobrindo tudo.

8. A experiencia como artista residente no CDAP.

Muito boa. Contei com o apoio de uma equipe de profissionais com raro interesse em cooperar com o desenvolvimento do meu projeto, assim como dos outros artistas que ali se encontravam.